22 julho 2013

AUSTERIDADE, SOLUÇÃO OU PROBLEMA?


AUSTERIDADE, SOLUÇÃO OU PROBLEMA?


Terça, 05 Fevereiro 2013 17:01


É inequívoco que Portugal vive uma grave crise. Possui uma dívida soberana muito superior ao seu PIB e tem vindo a acumular excessivos défices. Em função disso, é imperativo encontrar soluções para estes desequilíbrios que condicionam negativamente a vida de todos.

Porém, se os problemas são inquestionáveis, as soluções não podem deixar também de ser questionáveis. O país vive, atualmente, subordinado ao predomínio das finanças públicas em detrimento do primado da economia, em particular, das estratégias de desenvolvimento. Na prática, tem existido uma preocupação quase exclusiva com o défice orçamental e com a dívida soberana. Mas o défice e a dívida são vetores de finanças públicas que devem estar ao serviço da economia e só com o dinamismo desta, se poderá gerar a riqueza produtiva necessária para que seja possível o equilíbrio estrutural das nossas contas.



Com efeito, na essência deste processo, tem-se optado por uma política de austeridade baseada no assumido aumento da receita fiscal e no corte da despesa pública (em especial, corte de salários, pensões e prestações sociais). Ou seja, no seu conjunto, uma opção pela compressão do rendimento disponível das famílias.

Obviamente, não deixa de ser claro que, para fazer face a problemas de endividamento, somos obrigados pelos nossos credores a implementar medidas de contenção, reduzindo o nível de despesa e como tal, o nível de vida. E atuar só do lado da despesa não basta, também é indispensável não baixar o nível de rendimentos (riqueza) auferido.

Decrescendo as duas variáveis (despesa e rendimento), ficando mais pobres, torna inviável pagar uma dívida que, todos os dias, vai crescer com os juros. Daí que, se por um lado, o país não pode dispensar uma determinada política de contenção racional de gastos, por outro lado, não pode também deixar de procurar uma estratégia de crescimento económico que permita, o acréscimo de riqueza necessária para poder amortizar, progressivamente, o seu endividamento. Se o nosso limite de divida é uma relação percentual do produto (por ex. o teto da divida é 60 por cento do PIB), temos que aumentar o denominador (PIB).

É nesta dualidade, da intensidade do equilíbrio entre austeridade e crescimento, que se tem gerado uma grande controvérsia política. Contudo, convém não esquecer que nem sempre tudo na vida é preto ou branco, na maioria dos casos pode ser cinzento e também na ciência económica tal acontece. É necessário, urgentemente, ajustar o “mix” de “calibração” entre austeridade e crescimento que consiga responder de forma mais eficiente aos problemas que temos. Uma atenção obsessiva ao défice orçamental, baseada quase exclusivamente em medidas de austeridade, sem se atender, em simultâneo, à dinamização da economia é prolongar ‘sine die’ o ciclo recessivo produtivo do país e regredir nos aspetos sociais do desenvolvimento. Gastos desmedidos em investimento não reprodutivo também, da mesma forma, é proibitivo.

Deste modo, é preciso mudarmos o nosso paradigma face à atual situação de desequilíbrio, pois o grande problema estrutural da economia portuguesa é, sem dúvida, o fraco crescimento económico na fase pós adesão ao euro. Hoje, já poucas dúvidas subsistem a este respeito e os números falam por si; de 2000 a 2007 conseguimos apenas um crescimento médio de 1,5 por cento ao ano e uma contração acumulada do PIB de 2008 a 2012 de mais de 5,5 por cento.

O nosso problema “pós euro”, deriva de graves desequilíbrios da nossa matriz produtiva face a novas realidades e mercados, ao mesmo tempo que perdemos uma importante “arma” de equilíbrio macroeconómico, a política cambial e monetária. Foi, aliás, essencialmente, por via de políticas cambiais de desvalorização competitiva, que conseguimos reequilibrar as nossas contas na crise dos anos 80.

Por fim, outra das causas que poderão justificar a nossa “década perdida” poderá estar, também, na própria arquitetura da zona euro, que não é mais do que “um fato feito à medida” para a Alemanha e para a sua economia, baseada em bens de alta intensidade tecnológica (onde o fator preço não é determinante na mesma medida), tendo o Euro um valor cambial proibitivo para a competitividade de grande parte dos outros parceiros europeus da zona euro, em especial, a europa do sul.

Ora, perante tais problemas, estruturais, surge agora outro grande problema: o ciclo depressivo que a própria austeridade despoleta. Como tal, surge naturalmente uma pergunta; como sair desta espiral recessiva? A resposta são medidas contra cíclicas, fazendo o oposto do que temos feito na última década; menos austeridade, “turbinando” os gastos públicos em investimento reprodutivo e políticas fiscais agressivas, elevando a procura agregada (interna e externa). Esta variável “ativaria” os restantes estabilizadores automáticos. Os economistas keynesianos chamam a isto “ligar o motor” da economia e é baseado no “famoso” efeito multiplicador.

Em suma, ao invés de tentarmos perceber como poderemos cortar quatro mil milhões de Euros de despesa, deveríamos questionarmo-nos com sublinhada acuidade, como conseguiremos também crescer acima de quatro mil milhões de Euros!



Renato J. Campos
Economista

Publicado in Revista DADA

O VERDADEIRO DESPERDÍCIO!

 
O principal indicador para avaliar a prosperidade económica de um país, é o Produto Interno Bruto (PIB) e os principais fatores que influenciam a variação do produto são: a produtividade e a quantidade de fatores de produção (capital, trabalho e conhecimento) empregues ao serviço da economia. 
 
No caso de Portugal, a análise da variação do nosso PIB exibe uma situação de grave recessão, em grande medida, derivada da utilização pouco eficiente dos fatores produtivos. E de facto, a falta de produtividade é um problema estrutural há muito identificado em Portugal, resultante da pouca incorporação de “Conhecimento” no trabalho e da pouca rentabilização do capital. Porém, proporcionalmente bem mais grave, é a não utilização plena dos nossos fatores produtivos, fazendo com que o PIB português não se encontre no seu nível potencial, isto é, o equivalente ao patamar de pleno emprego dos fatores de produção. 
 
Assim, na atual grave recessão, existe um elevado hiato do produto, ou seja, a diferença existente entre o produto efetivo (o que produzimos) e o produto potencial (o que poderíamos produzir), o que demonstra uma inequívoca subutilização dos nossos fatores produtivos, nomeadamente ao nível do fator trabalho. O número de quase um milhão de desempregados simboliza bem este desaproveitamento.
Resultado: um verdadeiro desperdício, derivado de medidas de austeridade que visam obter uma desvalorização competitiva, refletida na quebra acentuada dos custos de mão de obra obtida à custa do aumento do desemprego. Sinteticamente, menos oferta de emprego e muitos desempregados equivale a menores remunerações.
 
Porém, tal como a história económica sempre o demonstrou, estas medidas fracassaram estrondosamente. Porquê? Porque os modelos que estão na base das políticas económicas assentes na teoria da austeridade, ignoram algo muito importante: o desemprego corresponde a um massivo desperdício de recursos valiosos. Porque níveis de desemprego acima da taxa natural, correspondem a bens e serviços que os desempregados podiam ter produzido e não o fizeram, bem como, receitas fiscais provenientes do trabalho que são desperdiçadas.
 
É por esta razão que muitos defendem políticas económicas de inspiração Keynesiana, viradas massivamente para o incentivo ao crescimento pela via da “procura”. Não é um cliché, é ciência económica e já está na hora de “ligar o motor” e fazer crescer a economia!
Renato J. Campos
Economista

in
Revista DADA Maio

03 março 2013

AUSTERIDADE, SOLUÇÃO OU PROBLEMA?


AUSTERIDADE, SOLUÇÃO OU PROBLEMA?

É inequívoco que Portugal vive uma grave crise. Possui uma dívida soberana muito superior ao seu PIB e tem vindo a acumular excessivos défices. Em função disso, é imperativo encontrar soluções para estes desequilíbrios que condicionam negativamente a vida de todos. 

Porém, se os problemas são inquestionáveis, as soluções não podem deixar também de ser questionáveis. O país vive, atualmente, subordinado ao predomínio das finanças públicas em detrimento do primado da economia, em particular, das estratégias de desenvolvimento. Na prática, tem existido uma preocupação quase exclusiva com o défice orçamental e com a dívida soberana. Mas o défice e a dívida são vetores de finanças públicas que devem estar ao serviço da economia e só com o dinamismo desta, se poderá gerar a riqueza produtiva necessária para que seja possível o equilíbrio estrutural das nossas contas.


Com efeito, na essência deste processo, tem-se optado por uma política de austeridade baseada no assumido aumento da receita fiscal e no corte da despesa pública (em especial, corte de salários, pensões e prestações sociais). Ou seja, no seu conjunto, uma opção pela compressão do rendimento disponível das famílias.

Obviamente, não deixa de ser claro que, para fazer face a problemas de endividamento, somos obrigados pelos nossos credores a implementar medidas de contenção, reduzindo o nível de despesa e como tal, o nível de vida. E atuar só do lado da despesa não basta, também é indispensável não baixar o nível de rendimentos (riqueza) auferido. 

Decrescendo as duas variáveis (despesa e rendimento), ficando mais pobres, torna inviável pagar uma dívida que, todos os dias, vai crescer com os juros. Daí que, se por um lado, o país não pode dispensar uma determinada política de contenção racional de gastos, por outro lado, não pode também deixar de procurar uma estratégia de crescimento económico que permita, o acréscimo de riqueza necessária para poder amortizar, progressivamente, o seu endividamento. Se o nosso limite de divida é uma relação percentual do produto (por ex. o teto da divida é 60 por cento do PIB), temos que aumentar o denominador (PIB).

É nesta dualidade, da intensidade do equilíbrio entre austeridade e crescimento, que se tem gerado uma grande controvérsia política. Contudo, convém não esquecer que nem sempre tudo na vida é preto ou branco, na maioria dos casos pode ser cinzento e também na ciência económica tal acontece. É necessário, urgentemente, ajustar o “mix” de “calibração” entre austeridade e crescimento que consiga responder de forma mais eficiente aos problemas que temos. Uma atenção obsessiva ao défice orçamental, baseada quase exclusivamente em medidas de austeridade, sem se atender, em simultâneo, à dinamização da economia é prolongar ‘sine die’ o ciclo recessivo produtivo do país e regredir nos aspetos sociais do desenvolvimento. Gastos desmedidos em investimento não reprodutivo também, da mesma forma, é proibitivo.

Deste modo, é preciso mudarmos o nosso paradigma face à atual situação de desequilíbrio, pois o grande problema estrutural da economia portuguesa é, sem dúvida, o fraco crescimento económico na fase pós adesão ao euro. Hoje, já poucas dúvidas subsistem a este respeito e os números falam por si; de 2000 a 2007 conseguimos apenas um crescimento médio de 1,5 por cento ao ano e uma contração acumulada do PIB de 2008 a 2012 de mais de 5,5 por cento. 

O nosso problema “pós euro”, deriva de graves desequilíbrios da nossa matriz produtiva face a novas realidades e mercados, ao mesmo tempo que perdemos uma importante “arma” de equilíbrio macroeconómico, a política cambial e monetária. Foi, aliás, essencialmente, por via de políticas cambiais de desvalorização competitiva, que conseguimos reequilibrar as nossas contas na crise dos anos 80. 

Por fim, outra das causas que poderão justificar a nossa “década perdida” poderá estar, também, na própria arquitetura da zona euro, que não é mais do que “um fato feito à medida” para a Alemanha e para a sua economia, baseada em bens de alta intensidade tecnológica (onde o fator preço não é determinante na mesma medida), tendo o Euro um valor cambial proibitivo para a competitividade de grande parte dos outros parceiros europeus da zona euro, em especial, a europa do sul.

Ora, perante tais problemas, estruturais, surge agora outro grande problema: o ciclo depressivo que a própria austeridade despoleta. Como tal, surge naturalmente uma pergunta; como sair desta espiral recessiva?  A resposta são medidas contra cíclicas, fazendo o oposto do que temos feito na última década; menos austeridade, “turbinando” os gastos públicos em investimento reprodutivo e políticas fiscais agressivas, elevando a procura agregada (interna e externa). Esta variável “ativaria” os restantes estabilizadores automáticos. Os economistas keynesianos chamam a isto “ligar o motor” da economia e é baseado no “famoso” efeito multiplicador. 

Em suma, ao invés de tentarmos perceber como poderemos cortar quatro mil milhões de Euros de despesa, deveríamos questionarmo-nos com sublinhada acuidade, como conseguiremos também crescer acima de quatro mil milhões de Euros! 



Renato J. Campos
Economista
Publicado na Edição de Fevereiro da Revista DADA

19 fevereiro 2013

Austeridade, solução ou problema?

Austeridade, solução ou problema?



É inequívoco que Portugal vive uma grave crise. Possui uma dívida soberana muito superior ao seu PIB e tem vindo a acumular excessivos défices. Em função disso, é imperativo encontrar soluções para estes desequilíbrios que condicionam negativamente a vida de todos.



Porém, se os problemas são inquestionáveis, as soluções não podem deixar também de ser questionáveis. O país vive, actualmente, subordinado ao predomínio das finanças públicas em detrimento do primado da economia, em particular, das estratégias de desenvolvimento. Na prática, tem existido uma preocupação quase exclusiva com o défice orçamental e com a dívida soberana. Mas o défice e a dívida são vectores de finanças públicas que devem estar ao serviço da economia e só com o dinamismo desta, se poderá gerar a riqueza produtiva necessária para que seja possível o equilíbrio estrutural das nossas contas.



Com efeito, na essência deste processo, tem-se optado por uma política de austeridade baseada no assumido aumento da receita fiscal e no corte da despesa pública (em especial, corte de salários, pensões e prestações sociais). Ou seja, no seu conjunto, uma opção pela compressão do rendimento disponível das famílias.



Obviamente, não deixa de ser claro que, para fazer face a problemas de endividamento, somos obrigados pelos nossos credores a implementar medidas de contenção, reduzindo o nível de despesa e como tal, o nível de vida. E actuar só do lado da despesa não basta, também é indispensável não baixar o nível de rendimentos (riqueza) auferido.



Decrescendo as duas variáveis (despesa e rendimento), ficando mais pobres, torna inviável pagar uma dívida que, todos os dias, vai crescer com os juros. Daí que, se por um lado, o país não pode dispensar uma determinada política de contenção racional de gastos, por outro lado, não pode também deixar de procurar uma estratégia de crescimento económico que permita, o acréscimo de riqueza necessária para poder amortizar, progressivamente, o seu endividamento. Se o nosso limite de divida é uma relação percentual do produto (por ex. o tecto da divida é 60% do PIB), temos que aumentar o denominador (PIB).



É nesta dualidade, da intensidade do equilíbrio entre austeridade e crescimento, que se tem gerado uma grande controvérsia política. Contudo, convém não esquecer, que nem sempre tudo na vida é preto ou branco, na maioria dos casos pode ser cinzento e também na ciência económica tal acontece. É necessário, urgentemente, ajustar o "mix" de "calibração" entre austeridade e crescimento que consiga responder de forma mais eficiente aos problemas que temos. Uma atenção obsessiva ao défice orçamental, baseada quase exclusivamente em medidas de austeridade, sem se atender, em simultâneo, à dinamização da economia é prolongar sine die o ciclo recessivo produtivo do país e regredir nos aspectos sociais do desenvolvimento. Gastos desmedidos em investimento não reprodutivo também, da mesma forma, é proibitivo.



Deste modo, é preciso mudarmos o nosso paradigma face à actual situação de desequilíbrio, pois o grande problema estrutural da economia portuguesa é, sem dúvida, o fraco crescimento económico na fase pós adesão ao euro. Hoje, já poucas dúvidas subsistem a este respeito e os números falam por si; de 2000 a 2007 conseguimos apenas um crescimento médio de 1,5% ao ano e uma contracção acumulada do PIB de 2008 a 2012 de mais de 5,5%.



O nosso problema "pós euro", deriva de graves desequilíbrios da nossa matriz produtiva face a novas realidades e mercados, ao mesmo tempo que perdemos uma importante "arma" de equilíbrio macroeconómico, a política cambial e monetária. Foi, aliás, essencialmente, por via de políticas cambiais de desvalorização competitiva, que conseguimos reequilibrar as nossas contas na crise dos anos 80.



Por fim, outra das causas que poderão justificar a nossa "década perdida" poderá estar, também, na própria arquitectura da zona euro, que não é mais do que "um fato feito à medida" para a Alemanha e para a sua economia, baseada em bens de alta intensidade tecnológica (onde o factor preço não é determinante na mesma medida), tendo o Euro um valor cambial proibitivo para a competitividade de grande parte dos outros parceiros europeus da zona euro, em especial, a europa do sul.



Ora, perante tais problemas, estruturais, surge agora outro grande problema: o ciclo depressivo que a própria austeridade despoleta. Como tal, surge naturalmente uma pergunta; como sair desta espiral recessiva? A resposta são medidas contra cíclicas, fazendo o oposto do que temos feito na última década; menos austeridade, "turbinando" os gastos públicos em investimento reprodutivo e políticas fiscais agressivas, elevando a procura agregada (interna e externa). Esta variável "activaria" os restantes estabilizadores automáticos. Os economistas keynesianos chamam a isto "ligar o motor" da economia e é baseado no "famoso" efeito multiplicador.


Em suma, ao invés de tentarmos perceber como poderemos cortar quatro mil milhões de Euros de despesa, deveríamos questionarmo-nos com sublinhada acuidade, como conseguiremos também crescer acima de quatro mil milhões de Euros!


Renato j. Campos

Publicado na edição de Fevereiro de 2013 na REVISTA DADA

17 dezembro 2012

REESTRUTURAR, REFUNDAR OU CORTAR O CABELO!

REESTRUTURAR, REFUNDAR OU CORTAR O CABELO!


É hoje consensual que as políticas de austeridade sobre uma economia debilitada, como a portuguesa, vão inevitavelmente piorar dramaticamente a situação do país, tal como o comprova a “famosa” questão dos multiplicadores calculados pelo FMI. A razão é simples, a contração maciça das despesas públicas e a redução do poder de compra vai diminuir a procura e as receitas fiscais, desencadeando ainda mais necessidade de o país se endividar para pagar a dívida.


Dívida que, em 2013, atingirá 124 por cento do PIB e cujos juros representarão 7.164 milhões de euros (4,3 por cento do PIB), o que é uma trajetória insustentável pois a taxa de juro será superior ao crescimento da economia. Não é possível pagar 124 por cento do que se produz, se o que se produz não aumenta! Pior, em 2013, a economia não só não vai crescer, como irá contrair.

Perante tal cenário, que soluções existem? Três soluções: manter a situação atual; não pagar parte da dívida (corte de cabelo) e renegociar.

Manter a situação atual, será insustentável e não haverá “refundação do estado” que contenha o apetite voraz dos encargos associados ao serviço da dívida. Outra solução seria efetuar um haircut (corte de cabelo), expressão inglesa que define um não pagamento parcial e que, como a situação grega demonstra, tem dois grandes riscos: nem todos os credores aceitam cortar parte da dívida e compromete o acesso aos mercados durante anos. O que resta? Renegociar!

Efetivamente, renegociar, poderá ser a melhor solução, em especial, se optarmos pela sua versão mais soft, aquilo que em inglês se designa de reprofiling, isto é, manter o valor facial da dívida e rever o seu perfil (prazos e juros), indexando o valor da sua taxa de juro à taxa nominal de crescimento do país e estendendo a sua maturidade para prazos extremamente longos.

Dado que o cálculo nominal da divida é em função do produto, é crucial atuar sobre o numerador e o denominador do rácio com esta opção de renegociação, promovendo o crescimento da economia e gradualmente, com esses excedentes, ir amortizando parte da divida.


Renato J. Campos
Economista

Artigo publicado na edição de Dezembro da REVISTA DADA

22 outubro 2012

Crescimento vs austeridade!

Crescimento vs austeridade!

A questão do crescimento versus austeridade assume-se, actualmente, como o principal tema de debate em Portugal e na Europa. A vertente baseada na tese da austeridade (expansionista), de inspiração liberal, tenta racionalizar a despesa na tentativa de reajuste da nossa curva de rendimentos em função da taxa de juro.

Alternativamente, os economistas de inspiração keynesiana trabalham esta mesma curva do rendimento com os eixos invertidos, ou seja, é o rendimento que influencia as taxas e não o contrário, estabelecendo uma correlação positiva natural entre emprego, consumo e crescimento.

Longe do campo de discussão académica existe, porém, uma verdade que a economia real nos dita: para criar postos de trabalho é preciso que as empresas detenham essa necessidade, ou seja, a produção (oferta) ajusta-se em função da procura, a qual advirá apenas de duas vias: do consumo interno ou do consumo externo (via exportações).

Para sustentar um potencial aumento da procura, é fundamental a aposta em dois pontos críticos: alteração da matriz produtiva para bens transaccionáveis de média/alta intensidade tecnológica com potencial de exportação e uma diminuição dos chamados custos de contexto. Neste último campo poderíamos agir, de forma inequívoca e determinada, sobre as rendas económicas de empresas monopolistas que empolam os custos variáveis de produção (a electricidade, combustíveis, etc.). Simultaneamente, poderíamos também mexer no IRC, selectivamente, concedendo taxas fiscais muito atractivas por um período significativo a investimentos que privilegiem massivamente o emprego e a produção de determinados tipos de bens transaccionáveis para exportação. Não seria uma situação de dumping fiscal, apenas uma mera equiparação ao que outros países europeus como a Holanda e a Irlanda já fazem.

Estas medidas permitiriam, em grande medida, a necessária folga orçamental que permita dosear, de forma sensata, a racionalização da despesa com o crescimento económico!


Renato J. Campos
Economista

27 abril 2012

Inovação.Desemprego.


Em alta+++++++++++++
Inovação

Num ciclo económico recessivo, a sobrevivência das empresas está, sobretudo, dependente da sua habilidade de competir de forma inovadora no mercado. De facto, para serem competitivas, as empresas precisam cada vez mais de inovar através de uma gestão integrada e eficaz do próprio processo de inovação, o que permite minimizar incertezas, prazos e custos no desenvolvimento dos produtos, serviços, processos e negócios, reduzindo o seu time-to-market. Não obstante a inovação comportar incerteza e risco, actualmente, é uma necessidade imperativa em função das mudanças de padrões de consumo e de exigência, que são tão vertiginosas que é preciso estar sempre na vanguarda. A inovação não é uma moda é uma questão de sobrevivência, porque quem não inovar é ultrapassado em termos competitivos. As empresas que não conseguirem inovar, têm maior probabilidade de sofrer os efeitos nefastos da contracção monumental da procura que a actual conjuntura potencia, o que as levará, certamente, a um círculo nada virtuoso de ajustamento, baseado na técnica do costume;"despedir"...

Em baixa--------------------
Desemprego

De acordo com os mais recentes dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, Portugal é o segundo país da Organização com maior taxa de desemprego. Efectivamente, a taxa de desemprego em Portugal subiu, recentemente, para 14,8%, um novo máximo histórico, naquela que é a segunda maior subida do desemprego entre os 24 países analisados pela OCDE.
Reforçando este facto, o número de pessoas empregadas caiu 3,1% no quarto trimestre de 2011, posicionando Portugal como o país da Europa com maior destruição de empregos.
De facto, é consensual, que o desemprego só pode ser combatido com crescimento económico. Porém, tal como a “ Lei de Okun” demonstra em Economia, existe uma relação inversa entre a variação do desemprego versus a variação do PIB. Na prática, o PIB teria que crescer aproximadamente 2% para poder reduzir em 1% a taxa de desemprego. Ou seja, para reduzir o desemprego para um patamar de 6%, a economia deverá crescer 8% a mais do que a taxa média dos últimos anos. Más notícias! Para tal, são necessárias taxas de crescimento “chinesas”…



Renato J. Campos
Publicado na Edição impressa da Revista DADA – Março 2012


19 fevereiro 2012

A EUROPA A CAMINHO DO PRECIPÍCIO !

Diz-nos a história, que sempre que a Europa entra em crise, tem acirrado estigmas nacionalistas que provocaram guerras sangrentas e fratricidas. Hoje, assistimos ao esboroar dos ideais europeístas que prometiam uma nova Europa de fraternidade e de solidariedade entre povos e Estados. Em seu lugar, recrudesce o domínio de uma Alemanha com os ancestrais e perigosos tiques imperialistas!

A destruição do Estado Grego – pai da democracia - com o previsível arrastamento progressivo dos restantes Estados da UE, começa a ser uma obsessão, que alguns teimam em não ver ou supondo que cumprindo o impossível, ficarão a salvo.

A teimosia punitiva do reforço das medidas de austeridade, extremamente duras e inaceitáveis, conduzindo como está provado a mais recessão e a um maior desemprego, sem qualquer esperança de crescimento da riqueza, não está só a conduzir a Europa para uma pobreza sem retorno e para uma situação social gravíssima. Está, também, a afetar todo o Ocidente, os Estados emergentes, o imprevisível mundo islâmico e, de certo modo, o continente asiático onde a China já mostrou a sua preocupação.

Como lucidamente nos avisa Mário Soares, esta situação conduz perigosa e inevitavelmente, a consequências desastrosas que podem por em causa as Democracias e os Estados de Direito, a menorização dos direitos humanos, suscitando, porventura, novos conflitos armados de extrema gravidade e de consequências imprevisíveis para a humanidade e para as conquistas civilizacionais. Enquanto isto, vamos assistindo, impotentes e revoltados, à ascensão da “Imperatriz Merkel”, bajulada pelas suas próximas vítimas (leia-se, para já, Portugal, Espanha, Itália e França…).

Decididamente não foi esta a Alemanha, que hoje nos faz temer um passado não muito distante, que a Europa e o Ocidente ajudaram solidária e financeiramente a reconstruir e mais recentemente a reunificar!

Infelizmente, a história parece ter apagado a memória dos políticos!

19/02/2012

Renato Vieira Campos

18 janeiro 2012

UM EVENTUAL REGRESSO AO ESCUDO

Perante a actual conjuntura, decorrente da crise das dívidas soberanas que assola a Zona Euro, anda no ar a seguinte questão: como seria um eventual regresso ao escudo?
Não temos dúvidas que, num cenário de colapso do euro e/ou simplesmente de Portugal deixar o euro, haveria consequências dramáticas! Segundo vários especialistas, a desvalorização associada ao regresso ao escudo poderia variar entre 30 a 50 por cento. Em termos exemplificativos, um depósito de 100 euros no banco passaria, de um dia para o outro, em escudos, a equivaler apenas 70 ou mesmo 50 euros.
Para o sector financeiro seria também dramático em virtude do seu não acesso pleno às linhas de crédito internacionais como, inevitavelmente, as poupanças dos aforradores teriam tendência a fugir dada a natural desvalorização dos depósitos bancários. Por sua vez, nos empréstimos bancários, a sua conversão seria automática para escudos à taxa de câmbio fixada nesse dia, sendo certo que a mesma seria diferente (mais elevada dada a desvalorização da moeda) da utilizada aquando da nossa adesão ao Euro provocando imparidades negativas. Inevitavelmente, para além de uma acentuada subida das taxas de juro, a liquidação por ex: de um antigo empréstimo de 500 euros traduzir-se-ia num valor certamente muito superior a cerca de cem contos.
Em termos da nossa actual divida junto dos mercados, o seu pagamento continuaria a ser feito em Euros, o que acarretaria um esforço maior na sua liquidação.
A nível comercial, a desvalorização do escudo tornaria as nossas exportações mais competitivas mas, em contrapartida, as importações ficariam mais caras provocando um aumento da inflação.
Finalmente, em termos de nível de vida das famílias e considerando que o preço das importações subiria numa proporção inversa à desvalorização do escudo face ao euro, o nosso poder de compra poderia regredir para aproximadamente metade do actual!
Em suma, um cenário catastrófico que urge evitar!

Renato J. Campos
Publicado na revista Dada

11 novembro 2011

A BANCA TEM DE FINANCIAR A ECONOMIA

Em altura da discussão do Orçamento de Estado para 2012, perante medidas de austeridade que deixaram os portugueses receosos e sob risco do saneamento das finanças públicas poder ter um resultado socialmente insuportável, as preocupações sobre o crescimento económico ganharam nova e merecida acuidade.
Para sair da crise, é necessário que a economia cresça e proporcione riqueza e emprego, sendo imprescindível, para tal, que a banca assegure o seu financiamento.
Contudo, decorre um braço de ferro entre a banca, a “troika” e o governo português em torno da capitalização dos bancos, sendo inevitável que os accionistas e/ou o Estado terão que, rapidamente, injectar capitais no nosso sistema financeiro. A grande questão é quem e em que condições! Ou a ajuda á banca nacional decorre por via da sua parcial nacionalização ou, alternativamente, por via da ajuda financeira aos principais devedores da banca (empresas públicas, autarquias e a Madeira) que poderiam assim amortizar grande parte das suas dívidas e, num sistema de vasos comunicantes, permitir que os Bancos libertassem recursos para os agentes privados.
Hoje os bancos não têm liquidez suficiente para continuarem a conceder novos créditos e a “troika” insiste que estes têm de recorrer à linha de crédito de € 12 mil milhões para se financiar mas, ao mesmo tempo, forçam os Bancos a reduzir o rácio crédito/depósito de 150% para 120%. Ou seja, só poderão conceder empréstimos em mais 20% do valor dos depósitos que cativam. Em simultâneo, exigem que os Bancos elevem os seus capitais próprios.
Perspectiva-se, na linha do horizonte, perigosas ameaças de um colapso do sistema financeiro europeu. Importa pois, que sejam tomadas medidas concretas para muscular o sistema financeiro português e consequentemente, permitir que este possa voltar a financiar a economia real.
Sem financiamento não há investimento, sem este não haverá crescimento da riqueza e sem esta, as contas públicas não serão equilibradas!

Renato J. Campos
Economista
Publicado na Revista DADA

30 outubro 2011

Os “Eurobonds” e uma Europa Federal!

A economia europeia vê-se a braços com uma insustentável crise da dívida soberana que poderá, no curto prazo, conduzir a um aumento da divergência económica entre os seus Estados membros mais vulneráveis e num efeito de contágio, à insolvência da própria Zona Euro. De facto, os países em dificuldades, Grécia, Irlanda, Portugal e, mais recentemente, Espanha e Itália precisam, urgentemente, de se financiarem a juros mais baixos ou irão sufocar economicamente.

Por isso, a mutualização europeia da própria emissão de dívida pode ser a solução mais pragmática, gerando uma taxa de juro baixa (menos risco), permitindo que estes países coloquem as suas finanças públicas em ordem e possam lançar as bases da recuperação da economia. Para tal, seria necessária a emissão de obrigações garantidas por todos os Estados, as chamadas “Eurobonds”. Ou seja, em vez de esses Estados do euro se financiarem sozinhos nos mercados internacionais, passariam a emitir dívida em conjunto, com o risco diluído por todos e com o rating mais baixo, tendo encargos inferiores. As economias mais fortes, com rating elevado ajudariam países com rating mais baixo, uniformizando as taxas de juro nessa emissão de obrigações. Os títulos levariam o “selo de garantia” de todos os países da Zona Euro e era por eles que as receitas dos juros seriam, posteriormente, repartidos na mesma proporção do contributo de cada um.

No entanto, os “Eurobonds”, só funcionarão eficazmente num quadro de transferência de soberania dos Estados, nomeadamente, em matéria de política fiscal e orçamental que conduzirão a uma maior integração política. Ou seja, o caminhar definitivo para um modelo de Federalismo europeu, viabilizando uma União Política.

Uma nova crise mundial anda por aí! Por isso, impõe-se, de uma vez por todas, que os líderes europeus assumam medidas arrojadas e históricas que possibilitem a uma Europa Federal sustentar a sua economia.



Renato J. Campos
Economista

20 setembro 2011

Outlook de um verão perigoso!

Outlook de um verão perigoso!
São significativos os desafios que a economia portuguesa enfrenta, a crise internacional expôs a nossa frágil posição financeira. Para enfrentar esses desafios, procura-se avançar com reformas direccionadas para a correcção dos desequilíbrios externos e internos e que, simultaneamente, aumentem o potencial de crescimento.

Não é, porém, uma equação fácil, todos sabemos! É importante ter em conta que tais ajustamentos serão realizados num contexto externo de elevada incerteza e de riscos substanciais. Com efeito, com a recente escalada dos juros dos títulos no mercado secundário da divida soberana de Espanha e da Itália, a dúvida e o risco de contágio instalou-se na zona euro, de tal forma, que o economia alemã poderá já começar a enfraquecer nos próximos meses.

 Por sua vez a China, o “motor” do crescimento económico mundial, vive uma perigosa escalada da inflação, o que obriga as autoridades chinesas a terem forçosamente que arrefecer a economia. E se a China abranda, em conjunto com a endémica inflação indiana, o comércio internacional trava fortemente. Por fim, não bastando a situação na Zona Euro e as vulnerabilidades da China (já para não falar do Japão, afectado pelo tsunami), também os Estados Unidos poderão estar sob o risco do seu governo federal, já em Agosto, entrar em default, pois o tecto legal de endividamento esgotou em Maio...

De facto, aquela que ainda é a maior economia mundial, só no mês de Agosto terá de fazer amortizações de 500 mil milhões de dólares da sua dívida e na primeira semana do mês, estarão em jogo 87 mil milhões (mais do que o valor do resgate concedido a Portugal). É este o cenário que se está a compor para este Verão, pelo que se antevêem tempos difíceis. Resta-nos ir fazendo o que nos compete, reduzindo gastos supérfluos e tentando promover o crescimento, esperando que não esteja na linha do horizonte uma “tempestade perfeita”…

Renato J. Campos
Economista

Artigo publicado na Revista DADA

16 agosto 2011

UMA POLÍTICA ECONÓMICA AUTO FÁGICA E SEM RETORNO !

Apenas uma política de equilíbrio orçamental sem estímulos ao crescimento económico gera, como é evidente, sempre menos receita fiscal – não cresce o produto e aumenta o desemprego -, obrigando em contrapartida a mais cortes na despesa do Estado (esta no essencial traduz-se na prestação de serviços às populações, nomeadamente de cariz social, e na defesa da soberania!). Por sua vez, menos receita fiscal, implica como compensação novo aumento dos impostos, gerando normalmente fuga de capitais, maior volume na economia paralela que, tudo conjugado, agravará o decréscimo da… receita fiscal! Mais uma vez, a tese do equilíbrio orçamental obriga a novos cortes nas despesas do Estado com gravíssimas consequências de índole social e na retracção da esfera produtiva.

Entramos assim num ciclo infernal: recessão da economia, enorme desemprego, desagregação da classe média, falta de coesão social, agitação descontrolada… e tudo isto sem retrocesso, a não ser que mude o paradigma político.
É perspectivando essa situação, e tomando em conta todas as gravíssimas consequências noticiadas em várias economias mundiais, nomeadamente na Grécia e também já em Portugal, que Michael Spence, Nobel da economia, afirma que é necessário equilibrar e conjugar a austeridade de uma política orçamental com uma assumida política de crescimento económico.
Isto requer, principalmente, investimento, publico e privado, maior competitividade, uma política fiscal adequada e um esforço acrescido em investigação e desenvolvimento. Ou seja, uma nova política que promova o crescimento económico e que não o estrangule e penalize as pessoas, ajudará ela própria, pelo acréscimo de produção e emprego, geradoras de receitas para o Estado a alcançar o objectivo do equilíbrio da situação orçamental!
Será assim tão difícil de entender?
16/08/11
Renato V. Campos

04 maio 2011

O AGRAVAMENTO DA CRISE ALIMENTAR EXIGE UM NOVO MODELO DE COOPERAÇÃO A NÍVEL GLOBAL

Novamente, o mundo encontra-se confrontado com o agravamento do flagelo da fome, tendo, agora como principal causa uma subida acentuada dos preços dos produtos alimentares. Este fenómeno não é de hoje. Desde há três décadas que as organizações internacionais recomendam que as estratégias, as políticas e os planos nacionais de desenvolvimento deviam de forma convicta, admitir como objectivo prioritário, a promoção do emprego e a satisfação das necessidades básicas da população de cada país.

No entanto, por diversas e complexas razões, os Estados pouco ou nada têm feito neste campo.

Em meados de 2010, este fenómeno aparece como um boomerang e um desafio planetário. Surgiram conflitos em 18 países, dos quais 10 em África. Então, vários milhões de indivíduos, em particular jovens, insurgiram-se contra a subida vertiginosa do preço do arroz, do milho, do trigo, do leite, do óleo de cozinha e de outros produtos alimentares de base. Recorda-se que já no período de 2006-2008, registaram-se, então, subidas de preços de 170% para o arroz, de 140% para o milho e de 130% para o trigo.

Esta situação tem vindo a gerar graves motins, por vezes, sangrentos, estimando-se várias dezenas de mortes. As populações mais desfavorecidas das zonas urbanas foram as mais atingidas. É o caso, por exemplo, no Haiti, o país mais pobre do continente americano, onde o saco de arroz de 120 libras, passou de 35 para 70 dólares numa semana, onde ¾ dos agregados familiares vivem com menos de 2 dólares por dia e onde 50 a 60% da população activa, está no desemprego.

Na origem das revoltas, estão as profundas desigualdades sociais e a dependência extrema de muitos países sub desenvolvidos, no contexto de um comércio desigual, que por sistema lhes é desfavorável, se bem que a nível mundial, se reconheçam hoje algumas melhorias.

É incontestável que a carência alimentar é a principal responsável pela malnutrição, da qual sofrem dezenas de milhões de pessoas, sobretudo crianças, principalmente no Terceiro Mundo. Neste começo do séc. XXI, onde a sociedade do conhecimento e da informação é o slogan da civilização, tal situação é chocante e contraditória. Segundo, valores da FAO, a fome atinge 923 milhões de seres humanos, sendo numerosas as famílias nos países em desenvolvimento, que tiveram que retirar os seus filhos da escola e que se privaram de cuidados de saúde, obrigadas, que são, a afectar cerca 70% dos seus rendimentos, à alimentação.

Contudo, são múltiplas e de várias origens as causas da fome. Desde o recente a crescente apetência dos Fundos Financeiros especulativos pelo mercado matérias-primas (a especulação sobre os mercados dos produtos agrícolas é hoje 2,8 vezes superior à sua média desde 1994); à livre troca de mercadorias por um lado, e à protecção aduaneira e ás subvenções por outro, constituindo obstáculos ao desenvolvimento da agricultura dos países pequenos; à mudança do comportamento alimentar nos países emergentes, particularmente a aceleração da procura na China e na Índia, onde os hábitos alimentares vêm mudando progressiva e aceleradamente; a políticas económicas erradas e desfasadas das necessidades das populações locais; á subida exponencial dos combustíveis minerais (o petróleo afecta a agricultura desde a produção e reflecte-se, principalmente, através da alta dos preços dos transportes), à produção dos “agro-combustíveis considerando-se que estes se encontram em competição nas áreas destinadas à produção agrícola, levando com isso a uma alta dos preços dos produtos alimentares. Enfim, outras causas e variáveis têm, também, um inequívoco impacto sobre a subida dos preços, tais como a seca e os conflitos armados, um pouco por todo o Planeta, mas com maior acuidade em África.

Gritos de alarme têm sido lançados pela ONU, Banco Mundial e a FAO, que sublinham que seentrou num longo período de tensão sobre os preços. Estas organizações não hesitam em apelidarem esta situação de “tsunami” económico, que poderá atingir 1,2 mil milhões de pessoas até 2025, calculando que 1% de aumento dos preços dos produtos de base afectaria pela negativa mais 16 milhões de pessoas. Outras consideram, também, que o BM e o FMI, têm uma quota de responsabilidade na crise, ao defenderem um modelo de desenvolvimento que encorajara a criação de uma economia de mercado e de rápido crescimento, sem se preocuparem com as graves implicações sociais de incidência local.

O certo, é que hoje, a situação torna-se, cada vez mais intolerável, sendo urgente encontrar soluções que deixem de envergonhar os princípios civilizacionais e a viabilidade de um mundo globalizado e menos assimétrico. Reconhece-se, porém, que a multiplicidade das causas da crise alimentar torna problemática a procura de soluções. Mas se nada for feito, não se poderá estar ao abrigo de uma sucessão de crises alimentares e de conflitos sociais, cujas consequências serão gravíssimas, sobretudo, para os países mais pobres. A consciência da gravidade da situação exige uma acção concertada à escala mundial, entre Estados e Organizações institucionais, com a propositura de acções e medidas concretas a curto, médio e longo prazo.

No equacionamento das medidas a tomar, sobretudo, a longo prazo, será necessário retirar as ilações e as consequências resultantes da subida dos preços das matérias - primas em geral e dos produtos alimentares em particular. Essas medidas, dificilmente deixaram de passar por um aumento da produção agrícola graças à distribuição de sementes e de adubos e ao maior investimento na agricultura local; pelas alterações nos hábitos alimentares reduzindo as proteínas animais; por uma menor ocupação de áreas destinadas aos “agro-combustíveis”; por um conjunto de medidas de incentivos em favor dos agricultores que permitam que os seus produtos sejam vendidos nos mercados locais; pela introdução de novas técnicas para produzir em menos tempo e em maior quantidade, aumentando as áreas e os rendimentos – graças ao aumento da produtividade – salvaguardando as florestas e os pastos reservados para a alimentação animal.

Inquestionavelmente, a crise alimentar atinge hoje situações calamitosas, não se podendo ignorar que o perigo do abrandamento da economia, da recessão e do desemprego, constituem a conjugação de três perigosos elementos que piorarão a situação das populações mais desprotegidas. São vários e de diversas procedências os avisos de alarme, lembrando que se nada for feito, a crise financeira poderá implicar, à escala mundial, a extinção de cerca de 20 milhões de empregos e um aumento de 40 milhões de trabalhadores pobres, germinando progressivas crises e conflitos sociais, de consequências políticas e bélicas imprevisíveis.

Renato Vieira Campos

16 abril 2011

Educação Financeira

A alfabetização financeira das crianças e jovens, ou seja a capacidade para administrar o dinheiro, é um assunto que nos deve preocupar a todos, num contexto de crescente endividamento dos portugueses. E caberá ao sistema educativo e a todos os adultos a missão de ensinar aqueles que serão os homens de amanhã a terem uma maior capacidade de gestão do dinheiro. Por isso se tem um filho, um neto, ou um sobrinho na sua vida pode e deve começar a educa-lo financeiramente.

E no que diz respeito a dinheiro não há nada como colocar a criança em contacto com ele. O acto de dar uma mesada ou uma semanada é extremamente importante pois dá-lhe a responsabilidade de ter dinheiro e logo de ter de o gerir (para comprar as suas coisas ou poupar). Naturalmente que nos primeiros tempos não será de estranhar se a criança gastar todo o dinheiro com consumos mais impulsivos, não efectuando qualquer poupança. Mas lembre-se os erros em criança permite evitar muitos erros na idade adulta, fazendo parte do processo de aprendizagem no caminho para o amadurecimento financeiro. Para corrigir esses erros deve ajuda-lo a definir melhor os seus gastos envolvendo-o nas decisões de consumo familiares, como a compra de um electrodoméstico ou de um carro, explicando-lhe sempre as suas decisões.

E claro, aproveite as habituais idas às compras para o ensinar a comparar preços de bens similares, como funcionam as promoções e como os preços de bens iguais variam consoante os locais onde os adquirimos (loja de bairro, hipermercado, mercado, etc).
Quanto à poupança existem também pequenos “truques” que podem ajudar uma criança a aprender a importância que ela tem e terá na sua vida. Uma forma de os ensinar será ajudá-los a estabelecer um objectivo de consumo futuro, para o qual eles colocarão de parte um dado montante do que recebem. Desta forma aprenderão que quando se quer adquirir algo, que está no presente acima das nossas possibilidades, poupar é a melhor solução para se atingir os nossos objectivos. Igualmente muito importante é abrir-lhes uma aplicação a prazo, levando-os a acompanhar a evolução da mesma, de forma a aprenderem que a poupança quando investida traz boas recompensas no longo prazo.

Resumindo ensinar uma criança a lidar com o dinheiro e com a aplicação temporal do mesmo, é decisivo para o seu futuro pois faculta-lhe a consciência financeira necessária para evitar o descontrole das suas finanças pessoais.

05 abril 2011

NAVEGAÇÃO À VISTA

Nos dias que correm, perante as reconhecidas dificuldades económicas que o pais atravessa, paradoxalmente, constata-se que ainda subsiste uma velha característica de alguns gestores portugueses que se julgava extinta, a chamada “gestão da navegação à vista”.

Este tipo de Gestão, descura as diversas forças envolventes externas às empresas esquecendo que, actualmente, as múltiplas decisões com que se deparam diariamente estão, muitas vezes, dependentes dos efeitos das ondas de choque macroeconómicas.

Estes efeitos propagam-se, sem duvida, de forma incontrolável nas Economias e nos seus Sectores de Actividade, basta relembrar, os impactos nas nossas empresas dos recentes episódios relacionados com a nossa conturbada conjuntura politica ou, ainda mais importante, a situação económica de aflição que o pais atravessa, com um iminente pedido de ajuda externa, de forma a evitar a insolvência.

Sublinhada pelos exemplos anteriores, estes efeitos de contaminação, acontecem a uma velocidade cada vez maior, em economias globalizadas e muito abertas ao exterior, sendo os seus efeitos sentidos muito rapidamente no dia-a-dia das empresas, bastará para tal, relembrar as actuais dificuldades de tesouraria e de financiamento com que muitas empresas (grandes e pequenas) actualmente se deparam.

De facto, é importante perceber o presente em toda a sua escala, como também, inevitavelmente, é fulcral para as nossas empresas minimizarem o seu risco por via de tentativas de prever o próprio futuro em termos económicos. A gestão estratégica do risco é cada vez mais uma função crítica nas empresas, a evolução dos últimos tempos fala por si!

Por estas razões é que, decididamente, a elaboração de análises de prospectiva sobre os mais diversos temas e cenários económico-sociais terá que constituir, cada vez mais, um vector incontornável à formulação de estratégias e de linhas de acção no dia-a-dia das nossas empresas. A prospectiva é, no domínio da gestão e da economia, o radar para detectar o que já partiu e que possivelmente chegará…

Renato J. Campos
Economista

Artigo publica na revista DADA online

Link:
http://www.revistadada.com/index.php?option=com_content&view=article&id=936:navegacao-a-vista&catid=109:opiniao&Itemid=193

Financiamento e emprego!

Todos os dias, através dos meios de comunicação social, constatamos as enormes dificuldades de financiamento do Estado português nos mercados financeiros.

Os juros exigidos para comprar a nossa Divida, tem sido cada vez mais altos para colocações a curto prazo e a sua procura, já começa a desinteressar alguns investidores internacionais tidos como referência (Fundos Soberanos etc.) o que significa que, a “torneira” do financiamento do deficit do Estado pode fechar-se, restando apenas as soluções mais “duras” da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Com ou sem FMI, o financiamento da economia tem de ser normalizado o quanto antes, sob pena de as funções sociais do Estado e o aparelho produtivo português, público e privado, ser obrigado a forte contracção.

Mas se o financiamento do Estado é preocupante, aos olhos de muitos portugueses, é o desemprego que lhes motiva maiores preocupações. Mais de 600 mil pessoas são afectadas por este flagelo e a taxa de desemprego é de 11,2% em Janeiro de 2011!

Todavia, as duas situações, financiamento e desemprego, estão intimamente interligadas. São as dificuldades de financiamento da economia que influenciam, negativamente, o aparelho produtivo, o que acarreta menos produção e como tal, destruição de emprego. Pelo que, uma vez amenizada a questão do financiamento global do Estado, será altura de focar também todas as energias no crescimento económico do país.

No entanto, em matéria de desemprego, existe uma área onde o Estado pode e deve ser especialmente interventivo. Além da inquietante situação dos jovens, é ainda mais preocupante arranjar soluções para os desempregados de longa duração. Cerca de 56% dos desempregados estão à procura de emprego há mais de um ano, geralmente pessoas com mais de 45 anos e com baixa formação académica e que, dificilmente, vão encontrar colocação, o que amplifica de forma assustadora o risco de pobreza e exclusão. Este é o problema mais importante e urgente e o retomar do crescimento económico poderá não o resolver por si só.

Mesmo com hipotéticas taxas de crescimento do PIB acima de 2% (as tais, que começam a ter um impacto positivo no rácio de criação de emprego), esse crescimento irá absorver, preferencialmente, os mais jovens e qualificados, deixando a descoberto uma importante franja de desempregados envelhecidos e sem qualificações. Isto, num pais que apresenta uma das mais altas taxas de envelhecimento no mundo!


Renato J. Campos

Artigo para a Revista Dada, Março 2011

O FUTURO DAS NOVAS TECNOLOGIAS; MOBILIDADE

O Século XX foi considerado, consensualmente, como o período do advento da Era da Informação.
Já o Século XXI é e será, sem dúvida, o período da consolidação da mesma para novos formatos e princípios. Efectivamente, nos últimos tempos, temos assistido a importantes mudanças tecnológicas no que respeita a tecnologias da informação com que muitos de nós lidamos diariamente e que potencia, justamente, a nossa capacidade de inovar.

Na realidade do nosso país existem, neste contexto, boas notícias! Portugal foi no conjunto da União Europeia, segundo os últimos dados de 2010, o país que mais cresceu no que respeita á inovação, em grande medida por via da uma já identificada propensão do pais para a rápida e fácil adopção de novas tecnologias. E de facto, é perceptível que cada vez mais nas nossas empresas, as vantagens competitivas são obtidas através da utilização de redes de comunicação e sistemas informáticos que inter-relacionam os diversos actores. Todavia, não é só na área empresarial que se sente tais transformações, são perceptíveis também nas nossas casas, nas escolas e nas comunidades.

Por todas estas razões, o mercado das novas tecnologias é a nível mundial, dadas as suas taxas de crescimento e abrangência, um dos mais dinâmicos de todo o espectro económico, designadamente por via de um “novo” princípio no qual também assenta, a mobilidade absoluta, um elemento chave na actual sociedade da informação por força da afirmação progressiva de quatro grandes tendências.

Em primeiro lugar, o acesso massificado à rede decorrente da disponibilização generalizada de infra-estruturas e serviços de comunicações electrónicas (Internet de banda larga, LTE, fibra óptica etc.), a preços tendencialmente competitivos. Em segundo lugar, destaca-se o crescente leque de funcionalidades que os mais recentes dispositivos móveis (Notebooks, Smartphones, Tablet’s etc.) têm vindo, evolutivamente, a apresentar. Decorrente de tais dispositivos destaca-se em terceiro lugar, a afirmação do conceito de “loja virtual” de venda de aplicações, com significativas potencialidades no que concerne á difusão de ferramentas tecnológicas inovadoras no nosso dia-a-dia e na forma como interagimos com a informação, inclusive no que concerne aos meios de comunicação social. Por fim, o ultimo factor que se salienta, é a chamada computação na “nuvem” em que dados, ficheiros e aplicações residem em servidores físicos ou virtuais, acessíveis por meio de uma rede em qualquer dos dispositivos mencionados, o que potencia a acessibilidade remota de quantidades significativas de informação.

De facto, na actual dinâmica em que nos movemos, cada vez mais ganha maior preponderância a capacidade de obter e partilhar qualquer informação, instantaneamente, de qualquer lugar, em qualquer momento e da maneira mais eficaz, no sentido da convergência de tecnologias, de plataformas e de conteúdos.

Ignorar ou não acompanhar esta evolução tecnológica, na crescente sociedade de informação em que nos movemos, será regredirmos, irredutivelmente, para um passado sem presente e, sobretudo, sem futuro!


Renato J. Campos

Artigo Publicado na revista DADA online


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http://www.revistadada.com/index.php?option=com_content&view=article&id=867:o-futuro-das-novas-tecnologias-mobilidade&catid=109:opiniao&Itemid=193

13 março 2011

“Austeridade”

“Austeridade” é uma das palavras de ordem que ouvimos repetidamente nos últimos tempos, tal como expressões ”menos Estado, menos despesa pública”! Contraditoriamente, porém, reclamam-se mais médicos, polícias, escolas, hospitais, estradas, protecção social, transportes públicos, ajudas às empresas, etc. Na prática, reclama-se um “Estado proteccionista” mas, paradoxalmente, todos exigem pagar cada vez menos impostos para o “alimentar”!

Ora, isto leva-nos a uma equação de difícil resolução: enquanto País, as nossas despesas são muito superiores às receitas públicas o que deriva num saldo negativo, num Deficit Público! Inevitavelmente, para cobrir esta diferença, o Estado tem que se endividar junto de financiadores externos, recorrendo aos “mercados”. O somatório acumulado dos vários deficits, deriva na chamada Divida Publica.

Todavia, é bom lembrar que em Portugal não tem sido só o Estado a endividar-se. As famílias e empresas também tem recorrido, sistematicamente, ao endividamento, o que resulta na chamada Divida Privada, que não é mais do que o equivalente ao financiamento que o nosso sistema bancário pede ao exterior, para depois nos emprestar!

A Divida Publica somada com a Divida Privada, origina a Divida Externa do País que, nesta altura, representa quase 225% do nosso produto interno bruto, sendo esta, a principal razão porque corremos algum risco (serio!) de termos de recorrer á ajuda do FMI e do fundo de estabilização! Mesmo que um Governo (este ou qualquer outro) consiga controlar a despesa pública, existe ainda a divida privada para nos preocupar seriamente (e aos nossos credores). Esta, aliás, é bem maior do que a do apelidado “Estado despesista”. O tal Estado que queremos mais pequeno mas a quem exigimos, constantemente, mais e melhor!

Em suma, estamos perante um problema, não só, da sustentabilidade do Estado mas fundamentalmente, da nossa viabilidade económica enquanto pais. Irremediavelmente, teremos que passar a saber fazer mais e melhor com menos recursos! Para isso, existe apenas uma maneira de o realizar: sermos eficientes, mais produtivos, para podermos ser mais competitivos! Só assim, conseguimos uma balança comercial mais equilibrada, que proporcionará mais riqueza para o País, para depois podermos exigir que o Estado faça mais e melhor por todos nós!


Renato J. Campos
Economista

Artigo publicado na Edição de Fevereiro da Revista Dada

22 fevereiro 2011

O RIBATEJO, terras com história antiga e território de múltiplos atravessamentos

1 - As terras do Ribatejo, também actualmente identificadas no contexto das Regiões Plano do território nacional, como Região do Vale do Tejo, encontram-se localizadas, praticamente no centro do país, distando Santarém, a sua capital administrativa, cerca de 70 km de Lisboa.

Todo este vasto e heterogéneo território tem história e origens muito antigas, remontando os seus primeiros povoados aos tempos neolíticos. Entre estes, conta-se Scalabis com raízes pré romanas, hoje Santarém, actual capital da região e a sua maior cidade. À sua denominação pelos bárbaros e romanos seguiu-se, entre os séculos VIII e IX a soberania árabe, período em que não só se desenvolve Santarém, como também muitas outras povoações da região “scalabitana”.

Entretanto, na transitoriedade histórica, toda a fértil região ribeirinha do Tejo foi sendo disputada entre árabes e cristãos, até à sua conquista definitiva em 1147 pelo primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques.

Foi durante a dinastia afonsina que as suas principais vilas receberam os primeiros forais, constituindo terminologia comum dos seus textos, a caracterização da região como “as terras de pão, vinho e gado”.

Cedo também, com o advento da Revolução Industrial, chegaram ao Ribatejo as primeiras máquinas agrícolas, tornando os seus campos num dos mais importantes esteiros do Portugal Agrícola. Em simultâneo, com o progresso tecnológico e o crescimento da produtividade dos seus férteis solos, as indústrias e os serviços foram, progressivamente, ganhando importância crescente na economia da região.

Mas não só pela fertilidade dos seus solos e pela amenidade do clima se distingue todo este vasto território da “ Riba do Tejo”. Também a excelência do diversificado património natural, monumental e cultural, abraça toda a sua história e se confunde com a génese evolutiva do Portugal moderno.

Neste primeiro decénio do século XXI, o distrito de Santarém, que administrativamente engloba quase a generalidade do território ribatejano ou do Vale do Tejo, constitui uma das regiões portuguesas com notórias potencialidades e alguns contrastes, onde o rural e o urbano harmoniosamente se entrecruzam, qual mosaico policromático, procurando no labor e no saber das suas gentes, a dinâmica quotidiana necessária para a modernização e inovação de um processo de desenvolvimento sustentável e socialmente qualitativo.

2 – O distrito de Santarém, possui uma superfície de 6.071 km.2, onde habitam cerca de 455 mil pessoas, sendo o seu território percorrido longitudinalmente pelo Tejo, “príncipe dos rios ibéricos”, que lhe confere um traço de união, uma identidade própria e lhe marca a diversidade cultural. Administrativamente, engloba 21 municípios e 192 freguesias tendo por capital Santarém, a antiga e romana “Scalabis”, cidade com reconhecida monumentalidade, hoje apelidada como a capital portuguesa do gótico.

Todavia, dentro da própria região, marcando a diversidade de duas realidades naturais, não existe uma hegemonia territorial. Cerca de 60% da superfície regional, localizada a jusante da Bacia Hidrográfica, integra a sub-região da Lezíria do Tejo, território rico em solos aluvionares proporcionadores de uma agricultura de excelência. Os restantes 40% formam a sub região do Médio Tejo, território situado na zona centro – norte do Vale do Tejo, com uma morfologia mais acidentada, favorável ao desenvolvimento da fileira florestal e à pastorícia e, onde também, se desenvolve uma antiga aptidão para a actividade industrial.

Em termos populacionais, o distrito de Santarém vê a sua população repartir-se de forma semelhante entre as duas sub regiões. Na Lezíria do Tejo, onde a densidade populacional é menor, especialmente no território da margem esquerda do Tejo, vivem, segundo o último recenseamento, cerca de 220 mi habitantes distribuídos não uniformemente por dez concelhos. Nos onze municípios do Médio Tejo, conferindo um habitat populacional mais denso e uniforme, habitam as restantes 235 mil pessoas.

Mas, hoje, tal como ontem, o Vale do Tejo, constitui na sua globalidade um território promissor, com inegáveis recursos endógenos, nomeadamente na natureza dos seus solos e na sua Bacia Hidrográfica. Ciente das potencialidades, mas também não ignorando a persistência de alguns estrangulamentos estruturais, é urgente, julgamos nós, que os agentes de desenvolvimento do Vale do Tejo e os seus responsáveis políticos, encontrem a consensualização algumas políticas e a aglutinação de múltiplas vontades, em torno de uma estratégia integrada de desenvolvimento sustentável para a região .

Em nosso entender, julgamos que na concretização dessa estratégia, deve sobressair como grande objectivo regional, a afirmação da competitividade do território num cenário geoestratégico nacional. Isto, num quadro de sustentabilidade, inovação e de transferência tecnológica, promovendo a cidadania e o bem estar, o robustecimento, a diversidade e a internacionalização da base económica, a requalificação dos recursos humanos, o fortalecimento do associativismo empresarial, a atracção de novos investimentos, isto tudo alicerçado num quadro institucional de uma administração moderna, inovadora e participada.

Importa, enfim e de uma vez por todas, sobretudo superando desafios em tempos adversos, transformar o ancestral e produtivo Ribatejo, numa região mais moderna, fortemente competitiva, porta de entrada do Atlântico e de referência valorativa, no contexto das regiões europeias.

Renato Vieira Campos

Fev. 2011