19 fevereiro 2013
Austeridade, solução ou problema?
É inequívoco que Portugal vive uma grave crise. Possui uma dívida soberana muito superior ao seu PIB e tem vindo a acumular excessivos défices. Em função disso, é imperativo encontrar soluções para estes desequilíbrios que condicionam negativamente a vida de todos.
Porém, se os problemas são inquestionáveis, as soluções não podem deixar também de ser questionáveis. O país vive, actualmente, subordinado ao predomínio das finanças públicas em detrimento do primado da economia, em particular, das estratégias de desenvolvimento. Na prática, tem existido uma preocupação quase exclusiva com o défice orçamental e com a dívida soberana. Mas o défice e a dívida são vectores de finanças públicas que devem estar ao serviço da economia e só com o dinamismo desta, se poderá gerar a riqueza produtiva necessária para que seja possível o equilíbrio estrutural das nossas contas.
Com efeito, na essência deste processo, tem-se optado por uma política de austeridade baseada no assumido aumento da receita fiscal e no corte da despesa pública (em especial, corte de salários, pensões e prestações sociais). Ou seja, no seu conjunto, uma opção pela compressão do rendimento disponível das famílias.
Obviamente, não deixa de ser claro que, para fazer face a problemas de endividamento, somos obrigados pelos nossos credores a implementar medidas de contenção, reduzindo o nível de despesa e como tal, o nível de vida. E actuar só do lado da despesa não basta, também é indispensável não baixar o nível de rendimentos (riqueza) auferido.
Decrescendo as duas variáveis (despesa e rendimento), ficando mais pobres, torna inviável pagar uma dívida que, todos os dias, vai crescer com os juros. Daí que, se por um lado, o país não pode dispensar uma determinada política de contenção racional de gastos, por outro lado, não pode também deixar de procurar uma estratégia de crescimento económico que permita, o acréscimo de riqueza necessária para poder amortizar, progressivamente, o seu endividamento. Se o nosso limite de divida é uma relação percentual do produto (por ex. o tecto da divida é 60% do PIB), temos que aumentar o denominador (PIB).
É nesta dualidade, da intensidade do equilíbrio entre austeridade e crescimento, que se tem gerado uma grande controvérsia política. Contudo, convém não esquecer, que nem sempre tudo na vida é preto ou branco, na maioria dos casos pode ser cinzento e também na ciência económica tal acontece. É necessário, urgentemente, ajustar o "mix" de "calibração" entre austeridade e crescimento que consiga responder de forma mais eficiente aos problemas que temos. Uma atenção obsessiva ao défice orçamental, baseada quase exclusivamente em medidas de austeridade, sem se atender, em simultâneo, à dinamização da economia é prolongar sine die o ciclo recessivo produtivo do país e regredir nos aspectos sociais do desenvolvimento. Gastos desmedidos em investimento não reprodutivo também, da mesma forma, é proibitivo.
Deste modo, é preciso mudarmos o nosso paradigma face à actual situação de desequilíbrio, pois o grande problema estrutural da economia portuguesa é, sem dúvida, o fraco crescimento económico na fase pós adesão ao euro. Hoje, já poucas dúvidas subsistem a este respeito e os números falam por si; de 2000 a 2007 conseguimos apenas um crescimento médio de 1,5% ao ano e uma contracção acumulada do PIB de 2008 a 2012 de mais de 5,5%.
O nosso problema "pós euro", deriva de graves desequilíbrios da nossa matriz produtiva face a novas realidades e mercados, ao mesmo tempo que perdemos uma importante "arma" de equilíbrio macroeconómico, a política cambial e monetária. Foi, aliás, essencialmente, por via de políticas cambiais de desvalorização competitiva, que conseguimos reequilibrar as nossas contas na crise dos anos 80.
Por fim, outra das causas que poderão justificar a nossa "década perdida" poderá estar, também, na própria arquitectura da zona euro, que não é mais do que "um fato feito à medida" para a Alemanha e para a sua economia, baseada em bens de alta intensidade tecnológica (onde o factor preço não é determinante na mesma medida), tendo o Euro um valor cambial proibitivo para a competitividade de grande parte dos outros parceiros europeus da zona euro, em especial, a europa do sul.
Ora, perante tais problemas, estruturais, surge agora outro grande problema: o ciclo depressivo que a própria austeridade despoleta. Como tal, surge naturalmente uma pergunta; como sair desta espiral recessiva? A resposta são medidas contra cíclicas, fazendo o oposto do que temos feito na última década; menos austeridade, "turbinando" os gastos públicos em investimento reprodutivo e políticas fiscais agressivas, elevando a procura agregada (interna e externa). Esta variável "activaria" os restantes estabilizadores automáticos. Os economistas keynesianos chamam a isto "ligar o motor" da economia e é baseado no "famoso" efeito multiplicador.
Em suma, ao invés de tentarmos perceber como poderemos cortar quatro mil milhões de Euros de despesa, deveríamos questionarmo-nos com sublinhada acuidade, como conseguiremos também crescer acima de quatro mil milhões de Euros!
Renato j. Campos
Publicado na edição de Fevereiro de 2013 na REVISTA DADA
17 dezembro 2012
REESTRUTURAR, REFUNDAR OU CORTAR O CABELO!
É hoje consensual que as políticas de austeridade sobre uma economia debilitada, como a portuguesa, vão inevitavelmente piorar dramaticamente a situação do país, tal como o comprova a “famosa” questão dos multiplicadores calculados pelo FMI. A razão é simples, a contração maciça das despesas públicas e a redução do poder de compra vai diminuir a procura e as receitas fiscais, desencadeando ainda mais necessidade de o país se endividar para pagar a dívida.
Dívida que, em 2013, atingirá 124 por cento do PIB e cujos juros representarão 7.164 milhões de euros (4,3 por cento do PIB), o que é uma trajetória insustentável pois a taxa de juro será superior ao crescimento da economia. Não é possível pagar 124 por cento do que se produz, se o que se produz não aumenta! Pior, em 2013, a economia não só não vai crescer, como irá contrair.
Perante tal cenário, que soluções existem? Três soluções: manter a situação atual; não pagar parte da dívida (corte de cabelo) e renegociar.
Manter a situação atual, será insustentável e não haverá “refundação do estado” que contenha o apetite voraz dos encargos associados ao serviço da dívida. Outra solução seria efetuar um haircut (corte de cabelo), expressão inglesa que define um não pagamento parcial e que, como a situação grega demonstra, tem dois grandes riscos: nem todos os credores aceitam cortar parte da dívida e compromete o acesso aos mercados durante anos. O que resta? Renegociar!
Efetivamente, renegociar, poderá ser a melhor solução, em especial, se optarmos pela sua versão mais soft, aquilo que em inglês se designa de reprofiling, isto é, manter o valor facial da dívida e rever o seu perfil (prazos e juros), indexando o valor da sua taxa de juro à taxa nominal de crescimento do país e estendendo a sua maturidade para prazos extremamente longos.
Dado que o cálculo nominal da divida é em função do produto, é crucial atuar sobre o numerador e o denominador do rácio com esta opção de renegociação, promovendo o crescimento da economia e gradualmente, com esses excedentes, ir amortizando parte da divida.
Renato J. Campos
Economista
Artigo publicado na edição de Dezembro da REVISTA DADA
22 outubro 2012
Crescimento vs austeridade!
27 abril 2012
Inovação.Desemprego.
19 fevereiro 2012
A EUROPA A CAMINHO DO PRECIPÍCIO !
Diz-nos a história, que sempre que a Europa entra em crise, tem acirrado estigmas nacionalistas que provocaram guerras sangrentas e fratricidas. Hoje, assistimos ao esboroar dos ideais europeístas que prometiam uma nova Europa de fraternidade e de solidariedade entre povos e Estados. Em seu lugar, recrudesce o domínio de uma Alemanha com os ancestrais e perigosos tiques imperialistas!
Decididamente não foi esta a Alemanha, que hoje nos faz temer um passado não muito distante, que a Europa e o Ocidente ajudaram solidária e financeiramente a reconstruir e mais recentemente a reunificar!
18 janeiro 2012
UM EVENTUAL REGRESSO AO ESCUDO
11 novembro 2011
A BANCA TEM DE FINANCIAR A ECONOMIA
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