Pela primeira vez neste Blog, decidi publicar um artigo que não é de minha autoria.
Efectivamente trata-se de um artigo de Paul Krugman (Nobel Economia 2008), Publicado em 16 de Outubro de 2009 no NYT.
Apenas digo, não poderia concordar mais...
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Mentalidades monetárias fora dos eixos
Uma lição que se pode retirar da Grande Depressão é que nunca se deve subestimar o poder destrutivo das más ideias. E algumas das más ideias que contribuíram para a Depressão revelaram-se, infelizmente, muito duradouras: sob forma modificada, continuam a influenciar o debate económico dos nossos dias.
A que ideias me refiro? O historiador da economia Peter Temin defende que uma das causas fundamentais da Depressão foi aquilo a que chama a "mentalidade do padrão-ouro". Quer ele dizer não só a crença na importância sagrada de manter o valor-ouro de uma moeda, mas também todo um conjunto de atitudes correlacionadas com ela: um medo obsessivo da inflação, mesmo em situações de deflação, oposição ao crédito fácil, o refrão de que, ainda que o governo tenha condições para criar emprego, não deve fazê-lo, porque isso representaria apenas uma recuperação "artificial".
No princípio da década de 1930 esta mentalidade levou os governos a subirem as taxas de juro e a reduzirem a despesa pública, apesar do desemprego que grassava, numa tentativa de defenderem as suas reservas de ouro. Mas em 2009 estamos muito longe desse tempo. Ou não?
Nos Estados Unidos existe uma versão moderna da mentalidade do padrão-ouro, que exerce uma influência crescente. E esta nova versão de uma velha má ideia pode prejudicar as hipóteses de alcançarmos uma recuperação plena.
Consideremos a recente celeuma a propósito da desvalorização do dólar a nível internacional.
A verdade é que se trata de uma boa notícia. Para começar, resulta sobretudo de um aumento da confiança: o dólar subiu na fase mais aguda da crise financeira, quando os investidores em pânico procuraram refúgio no mercado dos EUA, e está a descer de novo agora porque o medo está a desaparecer. Um dólar mais baixo é vantajoso para os exportadores dos EUA, o que ajuda o país a fazer a transição da anterior situação de gigantescos défices da balança de pagamentos para uma posição internacional mais sustentável.
No entanto, se lermos as opiniões expressas, por exemplo, na página editorial de "The Wall Street Journal", ficamos com a sensação de que a queda do dólar é um sinal de que o mundo está a perder a confiança nos Estados Unidos.
Fica-se com a sensação de que é preciso fazer alguma coisa para impedir a queda do dólar. Só nos resta esperar que a Fed não ceda a essa pressão. Mas há sinais preocupantes de uma mentalidade monetária fora dos eixos no seio da própria Reserva Federal.
Nas últimas semanas tem havido uma série de declarações de responsáveis da Fed, sobretudo (mas não exclusivamente) dos presidentes dos bancos regionais da Reserva Federal, apelando a um rápido regresso a uma política monetária mais restritiva, incluindo taxas de juros mais altas.
É extraordinária a ideia de que aumentar as taxas faria sentido num futuro próximo. Afinal a taxa de desemprego está nuns terríveis 9,8% e com tendência para aumentar, enquanto a inflação está bastante abaixo do objectivo de longo prazo do banco central americano. Isto parece indicar que a Reserva Federal não devia ter pressa em restringir o mercado monetário. Com efeito, uma regra elementar das políticas monetárias apontaria para que as taxas de juro fossem deixadas em paz durante os próximos dois anos ou mais, ou até o desemprego ter baixado para cerca de 7%.
Todavia, alguns responsáveis da Reserva Federal querem mexer nas taxas muito antes disso. Para evitar uma Grande Inflação, diz Charles Plosser, da Reserva Federal de Filadélfia, "vamos precisar de actuar muito antes de as taxas de desemprego e outras medidas de utilização de recursos terem regressado a níveis aceitáveis". Jeffrey Lacker, da Reserva Federal de Richmond, diz que pode ser necessário que as taxas subam, mesmo que "a taxa de desemprego ainda não tenha começado a descer".
Não sei que análise está por trás desta ânsia de mexer nas taxas. Mas provavelmente não é resultado de análise alguma; resultará de uma mentalidade, da esperança de que os bancos centrais sejam duros e não facilitem o acesso ao crédito. Ora é essencial que não deixemos esta mentalidade determinar a política económica.
Tudo indica que conseguimos evitar uma segunda Grande Depressão, mas ceder a uma visão modernizada dos preconceitos dos nossos avós seria uma receita quase infalível para garantir a segunda pior hipótese: uma longa era de crescimento arrastado, com altos índices de desemprego.
Paul Krugam
Exclusivo: New York Times
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fim de transcrição
22 de Out de 2009
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